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terça-feira, 11 de junho de 2013

Imaginários em Quadrinhos: o primeiro volume



Imaginários é uma série de antologias de contos de fantasia, horror e ficção científica, aí incluídas as variações intercalares de cada um desses gêneros. Publicada pela Editora Draco, manteve a periodicidade anual do primeiro ao quinto volume. Os dois primeiros volumes foram organizados por Tibor Moricz, Eric Novello e pelo saudoso Saint-Clair Stockler; os três mais recentes, por Erick Santos Cardoso.


Imaginários: as antologias de contos


Além de novos autores, a série já publicou contos de nomes de destaque da ficção de gênero brasileira, como André Carneiro, Jorge Luiz Calife, Roberto de Sousa Causo, Eduardo Spohr, Gerson-Lodi Ribeiro e Luiz Bras. A série oferece um panorama dessa produção como tantas outras antologias de gênero brasileiras, mas a vantagem trazida pela periodicidade constante possibilita a formação de um panorama mais amplo.

Neste ano, foi publicado o primeiro volume de Imaginários em Quadrinhos, organizado por Raphael Fernandes. Trata-se de uma edição para livrarias. Capa cartonada, orelhas, papel de qualidade em 120 páginas: visualmente, a edição já atrai desde o primeiro contato. Como sua irmã literária, este primeiro volume traz histórias que, de uma forma ou de outra, lidam com os paradigmas temáticos e narrativos próprios da ficção de gênero. Com uma exceção ou outra, o tom geral do volume remete à francesa Metal Hurlant, que parece ter sido tomada como referência por alguns dos roteiristas e desenhistas compilados.

A primeira história, escrita e desenhada por Raphael Salimena, chama-se “Ôch” – trata-se de uma interjeição de dor ou cansaço pronunciada por um dos personagens principais, incomodado com a idade avançada. Salimena possui um traço coeso, com cuidado e apreço pelas expressões faciais, e um texto que cumpre seu papel e conduz de forma fluída a narrativa.

A história é centrada em um grupo de personagens envelhecidos que visualmente remetem à temática science fictional da terra devastada: possuem próteses mecânicas de aspecto improvisado e roupas em frangalhos, além de habitarem um deserto rochoso afim a Zardoz ou Mad Max. A esses personagens é contraposta uma multidão de pessoas em trajes comuns no nosso mundo, como ternos, xales e batinas. Nubla-se a oposição entre estaticidade e movimento, entre conservadorismo e mudança: a multidão encarna o mundo das normas, das proibições; os velhos, a vontade de mudar e de quebrar as regras. O confronto entre esses dois grupos é dado com humor e sarcasmo, preservados até a conclusão da história.

Seguem-se três histórias curtas escritas e desenhadas por Jaum: “Negro Nemo e o Tesouro Pornô”, “Páginas Marcadas” e “A Sinfonia da Transmutação”. O texto assume um caráter fabular com pendor insólito, e o desenho de Jaum acompanha a proposta de forma harmoniosa: os contornos são calculadamente imprecisos ou trêmulos, divorciados de uma representação realista. A impressão que a arte passa chega a ser de alucinação ou de percepção alterada da realidade.

“Negro Nemo e o Tesouro Pornô” recorre a uma ambientação distanciada para contar como se dá a descoberta do sexo por uma criança e seu grupo de amigos; “Páginas Marcadas” trata de um homem que recebe conselhos sentimentais de seu sagaz cachorro, e traz uma frutífera relação intertextual com O Jogo da Amarelinha, de Julio Cortázar; “A Sinfonia da Transmutação” trata da degradação ambiental e da pequenez humana.

Relação intertextual é a tônica de outra história, “O Caso do Monstro do Ártico”. Intercalam-se elementos oriundos de narrativas de Mary Shelley (Frankenstein), Bram Stoker (Drácula) e John Polidori (O Vampiro). A apropriação é bem sucedida, resultando em uma colcha de retalhos bem costurada: história de ágil leitura, bastante movimentada. O roteiro, eficiente e despretensioso, é de Zé Wellington; a arte, de Marcus Rosado. Este é promissor e serve bem à narrativa, embora ainda careça de maior fluidez nas cenas de ação.

Valkíria, heroína voluptuosa estilo jungle girl, estrela duas histórias: “O Homem que veio do Céu” e “A Mulher Dourada”. Têm argumento de Alex Mir e Alex Genaro, e roteiro e arte do segundo. São histórias marcadamente pulp, com dinossauros, espaçonaves e civilizações perdidas. Compromissadas com o entretenimento, são narrativas cheias de energia e movimento. Demandam, mais do que quaisquer outras do volume, que o leitor compre a proposta e entre no divertido jogo de referências pulp.

As duas melhores histórias do volume trazem roteiro de seu organizador, Raphael Fernandes: “A Revolução não será Compartilhada”, com desenhos de Dalts; e “Apagão”, desenhada por Camaleão. Ambas são ficção científica de primeira linha: especulam e extrapolam tendências atuais de nosso mundo, de forma instigante. Sem hesitar, diria que concretizam plenamente o “distanciamento cognitivo” de Darko Suvin: por meio de uma representação distanciada, promovem um questionamento de ordem cognitiva acerca da realidade aparente.

“A Revolução não será Compartilhada” especula ficcionalmente acerca do famoso (famigerado?) grupo Anonymous. O protagonista, disposto a descobrir mais sobre o grupo, chega a surpreendentes revelações, através de um mergulho físico no mundo virtual por meio da magia. Nisso, a história guarda similaridades com uma das primeiras edições do John Constantine de Jamie Delano e Mark Buckingham (recentemente publicadas pela Panini no encadernado Hellblazer Origens Vol. 1). Cabe citar a referência ao clássico Hellraiser, de Clive Barker: o protagonista tem em seu quarto uma Configuração do Lamento e um boneco de Pinhead, como que a ecoar a passagem de uma dimensão a outra promovida pelo personagem. A Configuração do Lamento, lembremos, conduz ao inferno, algo bastante próximo dos caminhos que o protagonista vai trilhar no mundo virtual. Os traços de Dalts retratam com eficiência a transfiguração corpórea do personagem, tanto que foram eles os escolhidos para ilustrar a capa do volume.

“Apagão” trata de uma São Paulo pós-apocalíptica. Triste notar o quanto parece verossímel o mundo caótico originado pela mera falta de energia – fica a sensação de que o resultado seria similar ao mostrado na história, caso um apagão se estendesse muito na metrópole. Se o romance Não Verás País Nenhum (1981), de Ignácio de Loyola Brandão, pintava uma São Paulo degenerada por obra de uma série de fatores, hoje basta basta um único fator para pôr tudo a perder. Ou seja, estamos mais que nunca na corda bamba. 

A história é soberbamente desenhada por Camaleão. Consta no volume que é seu primeiro trabalho fora do humor, o que muito surpreende: os desenhos transbordam drama, dor e sujeira. Ainda assim, aqui e ali (por exemplo, quando os corpos se inclinam para a frente quando em movimento rápido) é possível notar uma representação mais comumente vista em quadrinhos de humor.

“Apagão” recentemente atingiu sua meta em um projeto apresentado no Catarse (site de crowdfunding), e logo veremos mais histórias ambientadas nessa terrível (mesmo que estilosa) São Paulo futura.

Imaginários em Quadrinhos Volume 1 pode servir como uma boa introdução a quem ainda não está ciente de que há uma infinidade de artistas brasileiros de qualidade não incorporados ao mercado estadunidense de super-heróis. Contudo, ainda é cedo para julgar se a série vai ser capaz de fornecer um panorama tão completo de nossa produção quanto a série de contos Imaginários. Para tanto, espero que os próximos volumes tenham também contribuiçoes de artistas nacionais já estabelecidos por aqui, como Mozart Couto e Julio Shimamoto. Se a periodicidade for constante como na série de contos, fornecer tal panorama deve ser uma meta fácil de alcançar.

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